Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Problemáticas do feminismo radical ou uma visão interseccional da coisa...


"O radfem vai na raiz da opressão, por isso é revolucionário... leia nossa teoria... Nossa luta é pelas mulheres nascidas mulheres... ou seja, mulheres biológicas, socializadas mulheres..."
"Nossa preocupação é somente com mulheres com vagina..." 
"Não tem útero/vagina, não é mulher..." 

Esses são alguns dos discursos incoerentes e problemáticos que já vi/ouvi de feministas radicais. São incoerentes porque ferem uma das pautas da própria vertente: a abolição de gênero. E problemáticos porque dizer que a opressão da mulher/cis parte originalmente da socialização por ela ter ''nascido mulher'', ser "mulher biológica", "ter uma vagina", sem implicar na história da leitura anatômica que dividiu os gêneros binários (homem x mulher) e, consequentemente, o papel que devia ser desempenhado por eles socialmente, não é analisar do patriarcado, muito menos permite premissas que o desnaturalize. 

Socialização de qualquer pessoa é orientada a partir do gênero que lhe foi designado ao nascer. É óbvio que se o sistema de dominação-exploração de gênero vigente é o patriarcado, a socialização feminina (socialização orientada por gênero designado ao nascer, sendo esse designado a partir da anatomia considerada feminina) é a que está mais vulnerável a sofrer condicionamentos machistas e misóginos, pois nascer com vagina, segundo a biologia, é pertencer ao chamado "sexo feminino". Porém, considerar só isso, não é "ir na raiz do problema", pois a raiz não está necessariamente na socialização "das pessoas com vagina" (odeio essas expressões genitalizadoras, mas tenho que usar para fins didáticos e de contradiscurso), mas na leitura histórica que é dada a anatomia que divide os "sexos" na sociedade. 

É essa leitura do que é ser homem x ser mulher, isto é, a leitura do que determina um indivíduo como pertencente a um sexo ou a outro é que vai legitimar socializações dispares.

''Nasceu com vagina, tem útero, vai ser mulher/fêmea.''/''Nasceu com pênis, vai ser homem/macho.'' 

A construção social da noção de um sexo biológico para cada indivíduo fez com que o discurso científico, dominado por homens/cis, legitimasse desde os séculos passados que as mulheres eram inferiores aos machos, por esses terem um pênis, órgão que por ser mais visível que a vagina, era merecedor de ovação (falocentrismo), por isso o lugar social destinado ao ''macho'' era o público, o visível, o do dominador, chefe, enquanto o destino da ''fêmea'' estava ligado ao espaço privado, subordinado, chefiado pelo sexo oposto tendo em vista que seu sexo estava ligado não a exterioridade e dominação, mas a procriação e subordinação.

O ponto no qual quero chegar é que legitimar a existência de um sexo biológico, através de discursos como "mulher biológica" é naturalizar a ideia de que existe um destino biologicamente determinado para os indivíduos, que existem características e comportamentos que são inatos, logo parte de um sexo que é inato, a-histórico, inquestionável, assim como comportamentos associados a ele. 

Durante séculos o discurso que mais naturalizou e sustentou (e que, de uma forma ou de outra, sustenta até hoje) o lugar de subordinação das mulheres/cis diante da sociedade patriarcal é a ideia de que nós somos seres inferiores. NÃO É REVOLUCIONÁRIO SE ASSUMIR "MULHER BIOLÓGICA", ainda mais só para tentar diminuir e excluir mulheres trans da luta ou deslegitimar a identidade delas. Dizer que é mulher DESIGNADA mulher ao nascer é mais relevante, pois DESNATURALIZA sexo biológico. Sem falar que a palavra designada já confere uma atribuição social sobre o "destino" do indivíduo, socialmente legitimado. Dizer que o gênero é designado é dizer que você não "nasceu" com ele, logo é uma atribuição, a qual você pode ou não se identificar. Reparem que aqui faço uma fusão entre sexo e gênero, pois considero que ambos são a mesma coisa. Ambos possuem uma história, são questionáveis. (Para mais informações, ver Problemas de gênero, da Judith Butler). 

"Mas isso não camufla a opressão das mulheres/cis?"

Definitivamente, não. Socialização parte de gênero designado, pessoas designadas mulheres estão sujeitas a uma socialização totalmente repressora, porém não são só pessoas designadas mulheres que sofrem com ''socialização patriarcal''. Mulheres trans, por exemplo, não são garotos/cis na infância e só passam a ser meninas/mulheres/trans depois de adultas, logo o que tem de subjetividade nelas é reprimido pela socialização que têm desde a infância, assim ao invés de a socialização masculina integrá-las ao lugar de poder do homem/cis na sociedade, faz com que elas tenham sua identidade/subjetividade deslegitimada. Mulheres trans, por não se encaixarem na categoria do "ser homem", desde a infância, sofrem humilhações públicas ou privadas, sofrem agressões físicas, verbais e psicológicas, ameaças de morte... grande parte delas é expulsa de casa ainda na adolescência, tendo como meio de sobrevivência, na maioria esmagadora dos casos, a prostituição. A socialização de uma criança trans, no geral, é totalmente repressiva, levando-se em conta que a sociedade vai tentar integrá-la no gênero oposto ao que ela se identifica, isto é, realmente pertence.

Dessa forma, afirmar que mulheres trans não têm, por exemplo, os privilégios usufruídos por homens/cis, NÃO nega o aparato repressor da socialização feminina que mulheres/cis sofrem, dizer que mulheres trans são prejudicadas com uma socialização que para elas é também problemática é NÃO limitar um sistema de dominação-exploração somente ao que mulheres designadas mulheres ao nascerem sofrem, ignorando a HISTÓRIA que resultou esse sistema. 

TODAS nós temos nossas pautas específicas e devemos protagonizá-las. Não é necessário excluir e deslegitimar a vivência das mulheres/trans para que mulheres/cis possam falar de suas vivências e protagonizar suas pautas. Feminismo interseccional é um exemplo disso. E talvez por isso seja a vertente mais marginalizada: porque abrange mulheres, cis ou trans, negras ou brancas, pobres ou ricas, héteros ou não, com ou sem deficiência, magras ou gordas etc.

"Queremos destruir a noção de gênero"
"Como fazemos isso?'' 
"Legitimando que só quem sofre com o patriarcado é quem tem buceta, que homem/trans é mulher lésbica doutrinada pelo queer opressor e que mulher/trans é homi-estuprador disfarçado de mulher... pois genital define TUDO".

Não é mais viável desafixar a leitura social da anatomia que define gênero? 
Deixo a deixa.

Lizandra Souza.

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