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Mostrando postagens com o rótulo Contos

LITERATURA FEMINISTA: CRÔNICAS, (MINI)CONTOS, POEMAS, RESENHAS E MAIS!

Os olhos de Ana

Era um fim de tarde bonito. Calmo. Estávamos cada uma com sua folha de papel, entretidas e caladas. No fim ia ter disputa de qual era o desenho mais bonito. Só quebrava o silêncio o grito da gavião fêmea numa das árvores. Sinal de marcação de território e proteção de seu ninho. De vez em quando nos olhávamos. Pra ver algum sinal de quem terminaria primeiro. Eu estava absorta, das outras vezes tinha desenhado algo. Se é que aquele borrão sem expressão podia ser um desenho. Dessa vez queria estar escrevendo. Comecei a escrever. Saiu um poema ordinário, fruto do tédio. Ela terminou e eu não tinha desenhado nada. Perdi. Fomos conversar sobre banalidades, então ela me falou que a turma da sala dela iria a um encontro de estudantes no cinema do shopping perto da escola nos próximos dias. A professora iria acompanhar os alunos. Iriam assistir a um filme... perguntei se ela já tinha falado com sua mãe. ''Ainda não''. Sua expressão ficou séria. Seu olhar vagou po...

O roludo do rôle

O roludo do rôle chega chegando. "Não sou machista, mas...", ele diz, ele grita, ele berra, ele urra, ele late, ele pia, ele pira e gira... mas é.  E como o é.  Com o roludo do rôle "Nem todo homem...", mas ele bem ignora ou finge não saber que todo homem, cisgênero, se beneficia de uma estrutura social que legitima hierarquias entre homens e mulheres. Mas esse tipo de generalização não conta. Também não conta as vezes por dia em que mulheres são assassinadas por homens, sobretudo, cis, por causa do machismo. E quando não são ("só") assassinadas, são estupradas. Mas "Nem todo homem...", afinal o roludo do rôle nunca matou nem estuprou uma mulher. Ele só agrediu (agride?) fisicamente, emocionalmente e psicologicamente algumas mulheres de seu convívio. Ele só as silenciou, as censurou, as reprimiu, as explorou, as subestimou, as ridicularizou. Ele só trata sua mãe como sua empregada doméstica, porém sem salário/remuneraç...

A Divina Piroca

~~Pela pica, Piroconildo foi ao Inferno~~ Depois de seu trágico encontro com Miss Andry, Piroconildo, despirocado, decidiu se exilar da face da Terra, pois esta não mais girava ao redor de sua piroca. Nem mesmo o colar de piroca, feito com sua piroca, lhe restara... As más línguas (meros boatos) contam que o médico que atendeu Piroconildo - quanto este quase enlouqueceu pela perda da pica - lhe cobiçara o valioso colar e o roubara. Enclausurado, em casa, Piroconildo praguejava o céu e o inferno: “Malditos sejam o céu e o inferno, amaldiçoado mais ainda seja o dia em que passei minha piroca naquela lâmpada mágica e a confiei àquela bruxa disfarçada de gênia... Miss Andry desgraçada, me despirocou...”. Piroconildo gritava, berrava, urrava, piava, latia e rodava descontroladamente, quando, de repente, sua visão falhou, seus pés fraquejaram e ele se viu perdido em uma selva escura e selvagem. Piroconildo não conseguia mais gritar, sua garganta estava gélida...  El...

MISANDRINHAS

Era uma vez um homem muito tolo cuja primeira esposa havia morrido logo após o nascimento de sua primeira filha, Simone. Sentindo-se solitário e apreensivo pela responsabilidade que sua esposa lhe deixara, o homem decidira casar-se novamente com uma mulher, viúva, chamada Nísia, que tinha duas filhas, para assim “poder dar uma mãe a sua filha”, o que na verdade mascarava um ardiloso desejo, que era o de poder fugir das tarefas do lar. Machonildo casou-se quando Simone tinha apenas onze anos. Sua nova esposa era uma mulher que todos diziam ser muito arrogante e extremamente vaidosa. Nísia passou a ser assim julgada depois que o marido passou a beber desenfreadamente e desabafar sua sofrência nos bares do povoado – o homem não aceitava ter que dividir as tarefas do lar e a responsabilidade em educar as meninas. As gêmeas, Betty e Frida, eram mais velhas que Simone meia década. Ouviam-se boatos de que elas não se davam bem com a filha do padrasto. Muitas pessoas da região diziam a...

O super-piroca

Era uma vez um homem que se gabava muito de sua piroca. Era a piroca isso, a piroca aquilo. Se não chovia no Nordeste, era falta de piroca no clima. Se o pão queimava, era falta de piroca no padeiro. Se as enchentes invadiam alguma cidade, era falta de piroca no saneamento... Se as as mulheres iam às ruas lutar por direitos... aí sim que era falta de piroca mesmo. Para Piroconildo somente uma coisa poderia resolver as dificuldades das pessoas: uma piroca. Ou várias. Mas não para por aí. As coisas que ele achava como sendo boas também estavam relacionadas à piroca, à presença dela... Seu primeiro emprego, resultado de sua piroca. Sua cura de uma doença rara, sua piroca e a piroca do médico... Se seu time de futebol ganhasse um jogo, fora por causa da piroca. Seu sobrinho passou no vestibular por causa da piroca. Sua tia ganhou na loteria, por causa da intuição da piroca do marido. Certo dia, numa rua qualquer, Pirocon...