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Da história do adultério ou a história de um modelo de comportamento duplo: mulheres culpadas e homens absolvidos pelos mesmos atos

Belmiro de Almeida - Arrufos, 1887
A história do adultério é a história da duplicidade de um modelo de comportamento social machista, de uma moral dupla, segundo a qual os homens, desde quase todas as sociedades antigas, tinham suas ligações extra-conjugais toleradas, vistas como pecados veniais, sendo assim suas esposas deveriam encará-las como "pecados livres", que mereciam perdão, pois não era o adultério masculino visto como um pecado muito grave (a não ser que a amante fosse uma mulher casada), enquanto as ligações-extraconjugais femininas estavam ligadas a pecados e a delitos graves que mereciam punições, pois elas não só manchavam a honra e reputação da mulher adúltera, mas também expunham ao ridículo e ao desprezível seu marido, o qual tinha a validação de sua masculinidade posta em jogo. 


Alguns exemplos de “castigos” contra aquele que cometesse o adultério nos vales do Tigre e Eufrates incluíam, no caso das mulheres, execução ou ter seu nariz decepado. Outros exemplos encontrados em registros de demais povos eram o açoitamento público, a marcação com ferro quente, o espancamento, a mutilação dos genitais, a decepação das orelhas, a retalhação dos pés, o abandono, a morte por apedrejamento, fogo, afogamento, sufocamento, arma de fogo ou golpes de punhal (Fisher, 1995, p. 89 e 98). Okimura e Norton (1998) registraram casos de mulheres que tiveram as pontas de seus narizes cortados recentemente (vinte e cinco anos atrás, como foi o nprimeiro caso ilustrado pelos autores no artigo), na República do Kiribati, uma ilha localizada na Micronésia, Oceano Pacífico. Algumas delas procuraram cirurgiões plásticos para reconstrução do nariz na Austrália. (...) Nos anos sessenta ainda era comum tal prática, tanto mulheres traídas desfiguravam os narizes das suas rivais, quanto os homens também o faziam com as mulheres que os traíssem, para logo em seguida abandoná-las. O objetivo de cortar o nariz da esposa adúltera era destruir e desfigurar um importante aspecto da atratividade sexual, o seu rosto. (OLIVEIRA, 2007, p. 25).

Na Idade Média, o adultério da esposa era encarado socialmente como tão inaceitável que era punido até com a pena de morte. Já o adultério masculino não era nem visto como adultério, já que ao homem era permitido/liberado ter relações extra-conjugais, logo eles não recebiam punições nem julgamentos morais, pois eram vistos de forma legal e socialmente como seres superiores, ideia legitimada culturalmente. 


De acordo com Socci (1983), a vida sexual no início da Idade Média foi marcada por características grosseiras e cruéis, sob a influência do cristianismo. Nesse período, os nobres sentiam-se no direito de possuir toda e qualquer mulher campesina que se deparasse, sem sentir o mínimo de remorso pelo que estava fazendo. Por conseguinte, a prostituição foi sendo aceita e legalizada sob supervisão municipal em alguns lugares da Europa. Já a Igreja Romana, na Idade Média, exerceu um intenso controle sobre as práticas sexuais. Sua legislação no que se referia ao casamento estava implícita a separação do sexo-prazer com algo positivo e espiritual unido ao sentimento do amor. O sexo só era consentido dentro do casamento e com inúmeras restrições para fins de procriação. (RODRIGUES, 2010, p. 26).

Em algumas civilizações antigas, o adultério poderia resultar em punições legais e/ou morais para ambos os gêneros, porém ainda assim o conceito de adultério era duplo. A mulher era considerada adúltera só em manter relações extra-conjugais com outro homem, logo, segundo a moral vigente, merecia punição. Os homens só eram alvos de punições legais, morais ou severas se a mulher com a qual eles traíram suas esposas fossem casadas, pois nessa situação eles estavam maculando a honra de outro homem, o marido de sua amante, visto como proprietário da esposa, logo o mesmo tinha legalmente ou moralmente o direito de assassinar não só a mulher adúltera, mas também seu amante. Na cultura ocidental o crime de adultério passou a ser punido legalmente com a pena de morte a partir da legislação do imperador Constantino I.. 

Dessa forma, o adultério feminino era visto como inaceitável independente se o homem-amante da mulher adúltera era ou não casado, já o adultério masculino era definido como imoral a partir do momento em que a mulher-amante do adúltero fosse casada, pois nesse caso, a honra e masculinidade de outro homem estava sendo abalada socialmente. 

Fisher coloca que entre 516 a.C. e a destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., os costumes sexuais judaicos passaram a ser cada vez mais identificados com as leis de Deus. Até então, no judaísmo, poucas práticas sexuais eram consideradas imorais. Aos homens, ao contrário das mulheres, era permitido livre acesso às prostitutas, concubinas, viúvas, criadas domésticas, e só lhes era interditado o relacionamento sexual com uma mulher casada, pois os relatos sagrados de Deus diziam para “não cobiçar a mulher do próximo”. (OLIVEIRA, 2007, p. 18).

Em algumas sociedades modernas essa discrepância também se acentuava. Um homem para ser considerado adúltero, tinha que manter financeiramente uma outra mulher, além de sua esposa, ou seja, proporcionar a outra mulher que não sua esposa uma "casa montada", ou seja, o homem não era punido exatamente por ter relações sexuais fora do matrimônio, mas por sustentar outra mulher, sua amante. A mulher era considerada adúltera só em manter relações sexuais com outro homem que não o marido.


Segundo Oliveira (2007, p. 23), esse padrão social duplo do adultério teve sua origem nas culturas camponesas "juntamente com a crença de que o homem era o provedor da família e era também seu dever reproduzir e continuar sua linhagem" (ibidem). Daí a tolerância social em relação as ligações extra-conjugais masculinas e a condenação aos mesmos atos praticados pelas mulheres.

Uma das explicações para essas discrepâncias está no valor dado a castidade feminina numa sociedade (me refiro aqui em especial a Ocidental, tendo em visto que em muitas não-ocidentais até hoje isso se acentua) que legitimou durante séculos o mercado matrimonial patriarcal e patrimonial, no qual a mulher-noiva quando casava saía da tutela paterna para a tutela do marido, passando, portanto, para a sua dependência, logo ela era concebida e tratada como objeto de troca de um homem ao outro. O pai, e depois o marido, eram legalmente responsáveis por ela, que era vista como incapaz, logo era socialmente recomendado, e culturalmente legitimado, que a mulher honrasse e obedecesse a seu pai e a seu marido (DUBY, PERROT, 1993). O controle da sexualidade feminina funcionou para legitimar essa ideia de que a mulher devia honrar seu pai e marido, pois sua castidade estava estritamente ligada a honra deles. Tanto que era esperado que a noiva se mantivesse virgem até a noite de núpcias e que posteriormente fosse fiel ao seu marido, para assegurar a este não só sua honra, mas também sua descendência legítima. 

Diante desse quadro há uma grande contradição, além de machismo, pois esperava-se que as mulheres se mantivessem virgens até o casamento, enquanto os homens poderiam transar a vontade, era indiretamente incentivado que os homens transassem com outros homens, sobretudo os que não tinham condições financeiras de frequentar os "prostíbulos". A contradição reside no fato de que nas sociedades em que o cristianismo ascendia, as relações homoafetivas eram extremamente marginalizadas e condenadas pelas "Leis de Deus".


Uma outra explicação para a existência desse padrão social de comportamento duplo pode ser relacionada a objetificação e hiperssexualização das mulheres, as quais eram consideradas propriedades sexuais dos homens, tanto que legitimava-se (legitima-se?) que elas só poderiam transar com seus maridos, "proprietários", pois seu valor, ligado a expressão de sua sexualidade e comportamento sexual,  diminuiria caso a mulher fosse "usada" por outro homem que não fosse seu "proprietário legítimo", isto é, marido (DUBY, PERROT, 1993).



A primeira vez em que o padrão duplo para o adultério foi registrado na civilização ocidental em códigos legais foi entre 1800 e 1100 a. C., em cidades da antiga Mesopotâmia (vale do Rio Tigre e do Eufrates). As partes desses códigos que se referiam à posição legal e aos direitos e deveres das mulheres diziam que elas tinham que manter sua virtude, da mesma maneira como pensavam os outros povos agrários. Foi a primeira evidência escrita da subjugação da mulher nas sociedades agrícolas da antiga Mesopotâmia, na qual as mulheres eram consideradas bens e propriedades. Esta inferioridade das mulheres com relação aos homens tem relação com o advento do arado na produção de alimentos. Antes, as pessoas utilizavam a enxada e as mulheres realizavam a maior parte do trabalho no campo (Whyte, 1978), mas com o surgimento do arado, em torno de 3000 a. C., que necessitava de uma força muito maior para ser usado, os homens passaram a ficar com a maior parte das tarefas agrícolas. Com a invenção do arado as mulheres perderam seu antigo papel de coletoras e provedoras de alimentos, passando a ser inferiores aos homens. (OLIVEIRA, 2007, p. 23).

Diante disso, a honra masculina e/ou a valiosa masculinidade (fragilíssima) de ouro e bolha de sabão dos homens tornou-se dependente da castidade ou fidelidade feminina, pois o marido enganado não era só alguém cuja virilidade era questionada por ser visto como o macho incapaz de satisfazer sexualmente sua mulher, mas também como alguém que não soube administrar o próprio lar.


Atualmente, mesmo nas sociedades ditas mais avançadas, democratizadas ou menos dogmáticas e conservadoras, essa moral dupla, assim como a mentalidade social machista de conceber, mesmo que de forma camuflada, a mulher como sendo um objeto sexual do homem, sendo sua castidade relacionada a virilidade dele, ainda vigoram, apesar de o sistema de punição legal não mais existir. 


No Brasil, por exemplo, apesar de o adultério não ser criminalizado, assim como em outras sociedades ocidentais,  a moral dupla e machista ainda é culturalmente legitimada a medida que homens que traem suas companheiras têm seus erros amenizados, camuflados ou ainda exaltados com discursos como "é coisa de homem trair", "é coisa de homem não ficar com uma mulher só", "todo homem é infiel", "homem é pegador por natureza", "isso (adultério) é que deixa o homem macho pra caralho" enquanto a mulher que trai o companheiro é vista como "puta", "vadia", "piranha", assim como a amante do homem adúltero é vista, sendo que ambas (a mulher adúltera e/ou a amante) geralmente sofrem agressões físicas e morais, o que geralmente é legitimado e naturalizado socialmente, pois as pessoas acham justo o homem agredir sua esposa porque esta o traiu, pois a masculinidade e honra dele "precisam ser defendidas", ele precisa "limpar sua honra" e ''colar'' sua ''masculinidade quebrada'', e isso se for preciso com o sangue de sua companheira, o que revela a sustentação da mentalidade machista vinculada a tradição moral dupla a respeito de como o adultério era concebido e tratado entre os gêneros desde as sociedades antigas, além do que, para completar esse quadro de violência contra a mulher, geralmente a mulher traída é incentivada a tirar satisfações e a culpabilizar a amante mais que ao próprio marido, sendo que este é que tinha compromisso com ela. 


REFERÊNCIAS

DUBY, G. PERROT, M. História das mulheres: Do Renascimento à Idade Moderna – volume 3. Porto: Afrontamento, 1993.

OLIVEIRA M. E. Orkut: O Impacto da Realidade da Infidelidade Virtual. 2007. 103 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia) Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUCRio, Rio de Janeiro, 2007. Disponível em: <http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/9888/9888_1.PDF>. Acesso em: 21 de DEZ. 2015.


RODRIGUES, M. A. O. Infidelidade online: uma nova modalidade de desestabilização nas relações amorosas. Caruaru: FAVIP, 2010. 80 f. Disponível em: <http://repositorio.favip.edu.br:8080/bitstream/123456789/727/1/TCC-+PDF.pdf>. Acesso em: 21 de DEZ. 2015.




Lizandra Souza.

2 comentários:

Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente!