Pular para o conteúdo principal

LITERATURA FEMINISTA: CRÔNICAS, (MINI)CONTOS, POEMAS, RESENHAS E MAIS!

"We Can Do It!": você conhece a origem de um dos grandes símbolos do movimento feminista?

We Can Do It! de J. Howard Miller, 1943.

We Can Do It! (Nós podemos fazer isso!) é a legenda de uma das imagens mais conhecidas do movimento feminista. Foi bastante usada a partir do início dos anos 80 do século passado para divulgar o feminismo, desde então várias releituras foram sendo feitas da imagem da moça trabalhadora, usando um lenço na cabeça,  arregaçando as mangas, mostrando um musculoso bíceps e passando a ideia de que "sim, nós mulheres podemos fazer isso!" (sendo este "isso" as atividades tradicionalmente convencionadas aos homens*) ao mesmo tempo em que  se desconstrói a ideia machista de "mulher sexo frágil".
Contudo, o que muitas pessoas não sabem é que a imagem foi criada algumas décadas antes, em 1943, e que não tinha nenhuma ligação com a divulgação do feminismo. We Can Do It! originalmente foi um cartaz idealizado para ser uma propaganda de guerra dos Estados Unidos, criada  por J. Howard Miller para a fábrica Westinghouse Electric Corporation, com o objetivo de incentivar as mulheres americanas trabalhadoras durante a Segunda Guerra Mundial, isto é, para atraí-las ao trabalho extra-doméstico durante a guerra.
Historicamente podemos notar que somente em períodos de guerra a ideologia que diferencia papéis de gênero é ligeiramente desativada, e isto em prol de benefícios econômicos das sociedades, ou seja, passa-se a não se diferenciar "trabalho de homem x trabalho de mulher" para se atender a interesses financeiros e de guerra. 
A mão de obra feminina na esfera extra-doméstica, tradicionalmente vista como suplementar ao trabalho masculino, é fortemente valorizada durante os períodos de guerra, nos quais os homens têm que ser liberados de seus postos para morrer na guerra ou, se assim preferirem, ir aos combates, liderar os campos de batalha.
Historicamente, a maior participação feminina na esfera extra-doméstica, isto é, fora do lar, é durante as guerras. Fato que ocorreu inclusive nas duas grandes guerras mundiais.

 Mulheres trabalhando na construção de um porta-aviões. Fotografia: Margaret Bourke-White — Time & Life Pictures/Getty Images

É então para atender a esses interesses (de estabilidade econômica e de esforço de guerra) que o cartaz feito por J. Howard Miller surgiu, para incentivar o trabalho feminino durante a guerra, fazendo com que as mulheres, sobretudo as de classes sociais mais favorecidas (mulheres trabalhadoras, de classes sociais desprivilegiadas, sempre existiram em todas as sociedades) antes limitadas aos trabalhos domésticos vissem que elas também podiam assumir a liderança em cargos ou áreas antes dominadas somente por homens.
A mulher da imagem é uma personagem fictícia de nome Rosie the Riveter (Rosie, a Rebitadeira), vista como um modelo de trabalhadora ideal: leal, eficiente, patriota e bonita.  A expressão Rosie the Riveter foi popularizada em uma canção (ver vídeo) de mesmo nome, em 1942, um ano antes da criação do cartaz. A personagem Rosie é inspirada na fotografia de uma operária americana, ícone da mulher trabalhadora durante a Segunda Guerra Mundial, Naomi Parker Fraley.


Porém, o cartaz foi pouco visto durante a guerra, e somente décadas depois, já no pós-guerra, ele foi reapropriado pelo movimento feminista de Segunda Onda, para promover o empoderamento feminino e divulgar o movimento e desde então foi amplamente divulgado, tendo se tornado selo postal dos EUA e sido amplamente usado em campanhas pelos direitos das mulheres.

Releitura de We Can Do It!, usada para divulgar o feminismo interseccional.

*Homens cisgêneros. Por questões didáticas, usarei somente homens, porém deixo aqui a observação de que a categoria a que me refiro é a dos cis.

REFERÊNCIAS


https://pt.wikipedia.org/wiki/We_Can_Do_It!

https://en.wikipedia.org/wiki/Naomi_Parker_Fraley

http://www.museudeimagens.com.br/mulheres-segunda-guerra-mundial/

http://www.famouspictures.org/we-can-do-it/


Lizandra Souza.

Comentários

  1. O post apresentado acima foi muito bem elaborado e trata de forma profunda o tema retratado, nos fazendo refletir. A partir dele foi possível a percepção de que o cartaz "We can do it " vai além de uma simples frase de empoderamento, conta uma história toda desde a época em que ela era apenas utilizada em um contexto de guerra nos Estados Unidos, até os dias atuais onde ela se torna reconhecida pela história de empoderamento das mulheres. Gostei muito do post, já que o mesmo nos mostra a realidade atrás da frase e nos mostra também,o crescimento e a evolução do empoderamento feminino.

    ResponderExcluir
  2. Ahhhh que lindoooo... Amei o post, posso linkar como referência na minha loja? https://www.beeshirts.com.br/we-can-do-it

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente!

Postagens mais visitadas deste blog

Vamos falar de misandria?

 O que é misandria no feminismo?   É o ódio generalizado aos homens?   N Ã O.  A misandria geralmente é dicionarizada como sendo o ódio aos homens, sendo análoga a misoginia: ódio às mulheres. Esse registro é equivocado e legitima uma falsa simetria, pois não condiz com a realidade social sexista vivida por homens e mulheres. Não  existe uma opressão sociocultural e histórica institucionalizada que legitima a subordinação do sexo masculino, não existe a dominação-exploração estrutural dos homens pelas mulheres pelo simples fato de eles serem homens, todavia existe o patriarcado: sistema de dominação-exploração das mulheres pelos homens, que subordina o gênero feminino e legitima o ódio institucional contra o sexo feminino e tudo o que a ele é associado, como, por exemplo, a feminilidade. Um exemplo: no Nordeste é um elogio dizer para uma mulher que "ela é mais macho que muito homem", tem até letra de música famosa com essa expressão, contudo...

O super-piroca

Era uma vez um homem que se gabava muito de sua piroca. Era a piroca isso, a piroca aquilo. Se não chovia no Nordeste, era falta de piroca no clima. Se o pão queimava, era falta de piroca no padeiro. Se as enchentes invadiam alguma cidade, era falta de piroca no saneamento... Se as as mulheres iam às ruas lutar por direitos... aí sim que era falta de piroca mesmo. Para Piroconildo somente uma coisa poderia resolver as dificuldades das pessoas: uma piroca. Ou várias. Mas não para por aí. As coisas que ele achava como sendo boas também estavam relacionadas à piroca, à presença dela... Seu primeiro emprego, resultado de sua piroca. Sua cura de uma doença rara, sua piroca e a piroca do médico... Se seu time de futebol ganhasse um jogo, fora por causa da piroca. Seu sobrinho passou no vestibular por causa da piroca. Sua tia ganhou na loteria, por causa da intuição da piroca do marido. Certo dia, numa rua qualquer, Pirocon...

O (não) uso do sutiã e a problematização feminista

A nova onda virtual feminista da vez é problematizar o uso do sutiã sem recorte histórico, social e individual. Por um lado, algumas militantes dizem que ''não usar sutiã é revolucionário'' e que ''a mulher que usa está se prendendo a moldes patriarcais de censura do corpo feminino'', do outro, outras alegam que ''não usar sutiã não é revolucionário ou empoderador'' e que ''só não usa quem tem "peito padrão", quem tem peito pequeno, quem está mais próxima do padrão estético de beleza''. A era do 8 ou 80... Muito pensamento autoritário e extremo/fechado de ambos os lados. Eu vou problematizar o uso do sutiã enquanto objeto criado pra, por exemplo, ''camuflar mamilos femininos'', "dar outra aparência aos seios da mulher", "evitar [algo natural do corpo humano] que os seios caiam".  Mesmo depois de mais de um século de sua existência, ainda há hoje todo um tabu sobre o...

#ÉMachismo: atitudes machistas naturalizadas no nosso dia-a-dia

  O machismo é o pilar do patriarcado: sistema de dominação-exploração-subordinação da mulher pelo homem. Quando se fala em machismo, muitas vezes, nos vêm a mente mulheres estupradas, assassinadas e espancadas, ou, ainda, frases como "mulher é o sexo frágil", "é natural a mulher ser emocional enquanto o homem é racional", "foi estuprada porque usava roupa vulgar", "ela gosta de apanhar", "o homem é superior a mulher", entre outros discursos e atitudes explicitamente machistas. Contudo, isso não significa que somente esses comportamentos extremos consistam em machismo. Em nossa vida cotidiana, reproduzimos ou consumimos, de forma naturalizada e/ou inconsciente, atitudes machistas veladas de simples opinião, o que legitima a manutenção do patriarcado e, consequentemente, dificulta sua superação.   Abaixo, reproduzo alguns discursos e atitudes machistas que são naturalizadas no nosso dia-a-dia. O machismo também mora nos detalhes, ...