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LITERATURA FEMINISTA: CRÔNICAS, (MINI)CONTOS, POEMAS, RESENHAS E MAIS!

Afinal, o que é feminismo interseccional?



Feminismo, de forma genérica, é um movimento sociopolítico que busca uma sociedade livre do patriarcado, entendido aqui como o sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem. Com o fim do patriarcado, espera-se, sobretudo, que as mulheres não sofram mais com a opressão de gênero, que as relações sociais entre homens e mulheres não sejam tão assimétricas e que as mulheres sejam ensinadas a se empoderarem, não a se alienaram diante de seu gênero. Todavia, apesar de "feminismo" ser geralmente usado no singular, a ideia que ele contempla deve ser vista no plural, pois não existe "um feminismo", mas feminismos ou movimentos feministas, heterogêneos, plurais e com suas próprias formas de articulação e promoção de pautas a respeito dos direitos das mulheres, o que fica evidente com as suas mais variadas vertentes. 
O feminismo interseccional (ou intersec) é uma das vertentes do movimento feminista. Ele diz respeito as intersecções ou recortes de opressões e vivências que devem ser feitos quando se for analisar as estruturas sociais de dominação-exploração, assim como os sujeitos que são atingidos (des)favorecidamente por elas. As feministas intersecs defendem, por exemplo, o recorte de gênero, de condição de gênero, de etnia, de classe, de orientação sexual, pois reconhece-se que as mulheres não sofrem todas juntas as mesmas opressões e que nem sempre a mulher está em situação de desvantagem nas relações de poder na sociedade, pois estas não se configuram somente no sistema patriarcal tendo em vista que existem outros sistemas de opressão que envolvem etnia, classe, sexualidade etc. 
Diante disso, a interseccionalidade no feminismo importa porque podemos ser todas mulheres e isso já nos traz algo em comum. Anatomia? N Ã O! Leitura anatômica é cisnormativa. Nem toda mulher é cisgênero. Me refiro ao lugar que todas nós ocupamos na opressão de gênero: o lugar da subordinação-exploração. Nós somos subordinadas. Nós somos exploradas. Nós somos inferiorizadas. Nós somos o grupo oprimido em contraste com o grupo opressor-dominante no sistema hierárquico de opressão de gênero, isto é, o grupo que por ter o poder nas relações sociais de dominação-exploração de gênero é privilegiado NESSE sistema, que é o grupo formado pelos homens/cisgêneros. 
Toda mulher, dessa forma, independente da condição de gênero (cisgênera ou transgênera), etnia, sexualidade, faixa etária, peso, altura, classe social... SOFRE com o machismo, a misoginia, o androcentrismo, o falocentrismo, pilares do patriarcado. Em algumas mulheres isso pode ficar mais evidente que em outras, mas independente dos condicionamentos a que estamos expostas, todas nós, de uma forma ou de outra, sofremos com o sistema patriarcal. Porém, NEM toda mulher sofre com o racismo, nem toda mulher sofre com o sistema social heteronormativo, o que promove a acefobia, bifobia, lesbofobia, panfobia, entre outras opressões por sexualidade, nem toda mulher sofre com a transfobia, nem toda mulher sofre com a gordofobia, nem toda mulher sofre com o capacitismo, nem toda mulher sofre com o elitismo e/ou sistema hierárquico de classes, nem toda mulher sofre todas as opressões (ainda bem!), logo UNIVERSALIZAR vivências e colocar "as migas" no mesmo pacote de vivência e opressão é silenciador na medida em que não se estão reconhecendo privilégios que mulheres podem ter, sejam de etnia, de classe, de orientação sexual.
Podemos relacionar o surgimento dessa vertente ao fato de que historicamente o movimento feminista tem privilegiado SOBRETUDO as pautas de mulheres (cis) brancas, heterossexuais e classe média/alta. Mulheres negras, pobres, de periferia, não-heterossexuais, transexuais, por exemplo, só vieram ganhar maior visibilidade ou pautas ESPECÍFICAS a partir dos anos finais da década de 80 do século passado. O que havia antes era uma universalização da categoria mulher, uma especie de "somos todas iguais", um feminismo da igualdade, o que colocava toda mulher no mesmo ''pacote de vivências e opressão'', ou seja, um grande apagamento da luta das mulheres negras feministas, entre outras pertencentes a alguma minoria política, por um lugar de protagonismo no movimento. 
O feminismo interseccional surgiu, assim, como um feminismo da diferença, como uma crítica e reação ao que hoje é conhecido como ''feminismo branco'', movimento feminista que tem como ênfase as experiências das mulheres brancas e burguesas. Por isso que se atribui dentro do movimento feminista a origem do feminismo interseccional à luta das mulheres negras durante a transição da segunda onda do movimento feminista para a terceira (anos finais da década de oitenta e início da década de noventa do século XX), quando elas ganharam mais visibilidade e suas pautas específicas começaram a ser mais impulsionadas nas bandeiras do movimento feminista.
É, contudo, somente a partir dos anos de 1990 que o intersec se desenvolve plenamente como vertente e passa a impulsionar com maior vigor a micropolítica, aqui entendida como as políticas, pautas e ativismos voltados para cada grupo específico de mulheres, pois,  a partir das reivindicações das mulheres negras, ficou-se evidente que a socialização NÃO ocorre de forma igual para todas as mulheres. Mulheres negras são socializadas de modo diferente das brancas, pois não só o machismo as condicionam a serem oprimidas, mas o racismo (e em geral o sistema de classe, pois quem ocupa as posições mais desprivilegiadas na sociedade são as pessoas negras, sobretudo as mulheres). Dessa forma, as mulheres negras têm suas especificidades por causa da opressão racial. 
A mesma lógica de socialização díspar entre brancas e negras foi usada para mulheres héteros, lésbicas, bissexuais... pobres e ricas... Até contemplar em recortes de condição de gênero no que se refere a transgeneridade, para contemplar as mulheres trans tendo em vista que elas SÃO MULHERES e que sua socialização não ocorre de forma semelhante a socialização masculina, pois não há privilégio em pertencer a um grupo marginalizado socialmente só por pertencer e reivindicar um gênero oposto ao do nascimento. Mulheres trans não são socializadas como opressoras, mas como oprimidas. Relatos de meninas trans agredidas, humilhadas, espancadas, expulsas de casa ainda na adolescência para viverem da prostituição é o que não faltam. Se isso não é sofrer violência doméstica e de gênero, EU NÃO SEI O QUE É. 
Portanto, o feminismo interseccional é para todas as mulheres, ele não segrega, ele não exclui, ele contempla todas, sejam cis ou trans, magras ou gordas, brancas, negras, indígenas, entre outras, pobres ou ricas, com ou sem deficiência... É um feminismo que reconhece que as mulheres não estão todas dentro do mesmo sistema de opressão, pois este NÃO É UM SÓ. Eu dei ênfase ao público feminino por esse constituir a origem dos feminismos, todavia um fato interessante dessa vertente feminista é que ela não contempla só as mulheres, mas também homens transexuais e pessoas não binárias (nbs), os quais também têm seus espaços, obviamente específicos, dentro da causa, pela concepção de que há socialmente uma normatização da perspectiva cisgênera de gênero, o que causa não só a transfobia que mulheres trans sofrem, mas também a que esses outros dois grupos enfrentam cotidianamente. 


Lizandra Souza.

Comentários

  1. Olá Lizandra, meu nome é Gabriela, gostaria de entrar em contato com você por email ou WhatsApp, para falar sobre um projeto para o empoderamento feminino. Meu email é gabicorreapereira@gmail.com, abraços.

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    1. Olá, segue o email de contato do blogue:
      diariosdeumafeministacontato@gmail.com

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  2. muito obrigada por compartilhar teu conhecimento!! amei o texto, esclareceu muita coisa

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Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente!

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