Pular para o conteúdo principal

LITERATURA FEMINISTA: CRÔNICAS, (MINI)CONTOS, POEMAS, RESENHAS E MAIS!

Cultura não é só o que você gosta



  Cultura não é só o que você gosta e/ou apenas o que é cultuado e elitizado pelas classes sociais privilegiadas. Todo ser humano tem cultura. Não confunda cultura apenas com gostos pessoais ou classistas/elitistas.
Tomando em seu amplo sentido etnográfico [cultura] é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade (EDWARD BURNETT TYLOR apud CANEDO, 2009).
  A expressão "fulano é sem/não tem cultura" é muito problemática. É uma expressão classista-elitista e academicista, pois é geralmente usada para inferiorizar pessoas de classes socioeconômicas baixas, as quais não têm tanto acesso às formas de cultura erudita - ou ainda é usada para atingir negativamente pessoas que NÃO tiveram acesso a um nível médio ou alto de escolarização ou de letramento escolar. Uma coisa sou eu ter acesso a uma manifestação cultural, fazer parte dela e me identificar (ou não) com a mesma, outra bem diferente é eu julgar/estigmatizar e inferiorizar pessoas que tem ou que não tem a mesma vivência cultural (estrita, ampla, popular, erudita) que eu.
  Nem todas as pessoas têm as mesmas oportunidades de acesso às diversas manifestações culturais - me refiro aqui, mais especificamente, as manifestações culturais POPULARES e ARTÍSTICAS presentes na Cultura em geral. Uma pessoa pertencente a uma classe mais estigmatizada da sociedade - e que, portanto, não tem tanta possibilidade de acesso à cultura erudita - não é sem cultura. Ela pode não reproduzir costumes/valores/comportamentos da cultura ERUDITA, elitizada ou cultuada, mas não significa que essa pessoa não tenha Cultura. Todas/es/os nós temos cultura. Pois todas/es/os temos vivências e somos seres socializados.
  É importante ressaltar que NÃO me refiro aos elementos da cultura que é manifestada na ideologia e nas práticas que agridem e ferem os direitos humanos essenciais ou ainda no que diz respeito às práticas de opressão - como a ideologia e prática patriarcal presente na nossa cultura, por exemplo, me refiro aos elementos da cultura que estão mais estritamente presentes nas manifestações populares e artísticas, isto é, nas artes, na literatura, na música, na dança... O que também NÃO quer dizer que eu não possa apontar discursos opressores transmitidos em muitas dessas manifestações. Aliás, não só posso, como devo e faço.
  Ter acesso às mais diversas manifestações culturais artísticas é importante, legal, interessante..., mas infelizmente nem todas as pessoas têm. Pode ser que algumas pessoas pertencentes a classes sociais mais estigmatizas tenham acesso há algumas formas da cultura erudita (que mais acessível às elites), mas isso não é regra, portanto, apontar isso é falsa simetria.
  Discursos também são usados como instrumentos de opressão, de manutenção de poder. Logo, cuidados com o que falamos/escrevemos. Respeitemos, assim, as vivências pessoais e as diversidades de manifestações culturais. 

Referências

CANEDO, Daniele. “Cultura é o quê?” - reflexões sobre o conceito de cultura e a atuação dos poderes públicos. Anais do V ENECULT, Salvador: UFBA, 2009. Disponível em: <http://www.cult.ufba.br/enecult2009/19353.pdf>. Acesso em: 14 set. 2015.

Lizandra Souza.

Comentários

  1. Cultura todo mundo tem. Mas sempre tem alguém que acha que cultura é coisa que a elite gosta. Veja o caso do funk, do sertanejo e do pagode.

    ResponderExcluir
  2. faltou acrescentar: e mesmo se eu for exposta não sou obrigada a gostar/ me identificar. e isso não me faz uma pessoa "sem cultura"

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente!

Postagens mais visitadas deste blog

Falocentrismo, misoginia e a ditadura da beleza íntima: normatividades que fazem com que mulheres se odeiem cada vez mais

Beijinho só para quem não agride a ppk. Já pararam para pensar sobre o porquê de tantas mulheres passarem por procedimentos desagradáveis, cruéis e até mesmo perigosos  para se enquadrarem em determinados padrões ou estereótipos de beleza que, em geral, acreditam ser para o próprio bem-estar ou "gosto pessoal" mas que, na verdade, mascaram um gosto assimilado por uma cultura misógina e falocêntrica?  Falocentrismo é o culto ao falo, é a ideia machista de que o pênis é o centro do universo e tudo gira ao redor dele. Culturalmente, a figura masculina cisgênera representa o sujeito do falo, sujeito esse super-estimado socialmente. Aliado ao machismo, o falocentrismo é tão destrutivo que sustenta práticas culturais misóginas que fazem as mulheres odiarem o próprio corpo, até mesmo a própria genitália, pois há um padrão que essa deve seguir, padrão esse criado para o gosto masculino e reproduzido, sobretudo, pela indústria pornográfica: a ideia de uma vagin...

Por que gordofobia existe, mas magrofobia não?

Todas as mulheres (na verdade todas as pessoas, mas, por questões de gênero, farei esse recorte) sofrem ou estão sujeitas a sofrerem com a PRESSÃO ESTÉTICA resultante da idealização de beleza imposta pela indústria capitalista da beleza/moda, na qual a imagem do corpo feminino vira objeto de compra-venda e, consequentemente, a ideologia revestida nela faz com que as mulheres tenham suas autoestimas prejudicadas pelo que é imposto como bonito e ideal a ser seguido e alcançado para realização/felicidade plena delas, o que geralmente enquadra-se no padrão branco, cis e magro.  TODAVIA, nem todas as mulheres sofrem com algo estruturalmente e metodicamente instituído em sociedade para discriminar, segregar, inferiorizar, patologizar e excluir EM MASSA um determinado padrão de mulheres não-padrão de beleza, que é, por exemplo, o das mulheres gordas, sejam elas brancas, negras... altas, baixas... cis ou trans. Esse algo pode ser chamado de OPRESSÃO ESTÉTICA, pois há uma insti...

Afinal, o que é feminismo interseccional?

Feminismo, de forma genérica, é um movimento sociopolítico que busca uma sociedade livre do patriarcado, entendido aqui como o sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem. Com o fim do patriarcado, espera-se, sobretudo, que as mulheres não sofram mais com a opressão de gênero, que as relações sociais entre homens e mulheres não sejam tão assimétricas e que as mulheres sejam ensinadas a se empoderarem, não a se alienaram diante de seu gênero. Todavia, apesar de "feminismo" ser geralmente usado no singular, a ideia que ele contempla deve ser vista no plural, pois não existe "um feminismo", mas feminismos ou movimentos feministas, heterogêneos, plurais e com suas próprias formas de articulação e promoção de pautas a respeito dos direitos das mulheres, o que fica evidente com as suas mais variadas vertentes.  O feminismo interseccional (ou intersec) é uma das vertentes do movimento feminista. Ele diz respeito as intersecções ou recortes de opressõ...

Afasta de mim esse cale-se!

É tão difícil nos calarmos quando já temos conhecido e experimentado o direito ao grito, à voz, à palavra! É tão difícil nos calarmos quando já temos conhecido e ouvido o som da nossa própria voz! É tão difícil nos calarmos quando já temos conhecido e vivido a dor e a resistência de ser  quem somos  e de recusar  ser  quem  não somos! É tão difícil nos calarmos quando já temos conhecido o fato de que já nos calaram por muito tempo e que a agora a hora é de reconhecer que se calar não é saber, quem sabe grita, não espera acontecer! Pra dizer que não falei dos espinhos. Lizandra Souza.

Os olhos de Ana

Era um fim de tarde bonito. Calmo. Estávamos cada uma com sua folha de papel, entretidas e caladas. No fim ia ter disputa de qual era o desenho mais bonito. Só quebrava o silêncio o grito da gavião fêmea numa das árvores. Sinal de marcação de território e proteção de seu ninho. De vez em quando nos olhávamos. Pra ver algum sinal de quem terminaria primeiro. Eu estava absorta, das outras vezes tinha desenhado algo. Se é que aquele borrão sem expressão podia ser um desenho. Dessa vez queria estar escrevendo. Comecei a escrever. Saiu um poema ordinário, fruto do tédio. Ela terminou e eu não tinha desenhado nada. Perdi. Fomos conversar sobre banalidades, então ela me falou que a turma da sala dela iria a um encontro de estudantes no cinema do shopping perto da escola nos próximos dias. A professora iria acompanhar os alunos. Iriam assistir a um filme... perguntei se ela já tinha falado com sua mãe. ''Ainda não''. Sua expressão ficou séria. Seu olhar vagou po...