Diários de Uma Feminista. Tecnologia do Blogger.

Lugar de homem no feminismo é...


Já se questionaram do porquê de tantos homens cisgêneros (doravante homens) ficarem na internet chorando para usarem o título de feministas? Já se perguntaram do motivo de tanto alvoroço e male tears por conta de uma carteirinha? Já analisaram o fato de que eles recusam piamente o termo pró-feministas, porque querem ser, a todo custo (do silenciamento feminino), chamados de homens feministas? E, quando são confrontados por mulheres feministas não-liberais (marxistas, interseccionais, radicais etc), eles apelam para tentativas falhas de xingamentos como "feminazis", "misândricas", "femistas" ou, ainda, no auge de suas sedes por apoio, usam termos misóginos ou machistas, chamando as feministas que não dão a carteirinha deles de "vadias", ''putas", "mal amadas", entre outros termos advindos da raiva - misógina - momentânea. 

Eu já me questionei sobre tudo isso e, confesso, minha problematização não foi das melhores em se tratando de ver com bons olhos essa atitude masculina androcêntrica. A conclusão que eu cheguei é que lugar de homem no feminismo é fora. É justamente fora do movimento feminista que o homem deve demonstrar seu apoio para com a luta das mulheres. E o termo mais adequado para o homem aliado da causa feminista é o de "pró-feminista", mais adiante explico o porquê disso.

Não precisa se espantar e sair gritando aos quatro cantos do universo que "homens também podem ajudar na causa feminista", amiga feminista liberal, porque eu sei disso. E continuo achando que homem não tem lugar dentro do movimento feminista, pois é problemático assumir protagonismo masculino no único espaço onde as mulheres devem ter suas vozes priorizadas, legitimadas e visibilizadas. Vamos entender mais essa questão antes de chorar pelo sofrimento dos homens sem carteirinha de feministas?

Em questões de gênero, homens têm toda a sociedade patriarcal a favor deles. Da voz deles. Dos direitos deles. Dos privilégios de gênero para eles. Homens são por homens. Leis são, em massa, feitas por homens para homens. Para defender homens, para beneficiá-los, para legitimar o poder social deles sobre as mulheres. Homens têm toda uma estrutura social que os empoderam como sujeitos de si mesmos, enquanto as mulheres são ponderadas, são preteridas, são "o outro". Mulheres são deixadas à margem, são silenciadas, são subjugadas, têm suas experiências de mundo deslegitimadas pelo androcentrismo - visão de mundo masculina. MACHO JÁ TEM MUITA VOZ, socialmente legitimada e institucionalizada, ele não precisa de participação dentro do movimento feminista, a participação dele É FORA, é na sociedade, é nos espaços que ele já lidera culturalmente. 

Tenho certeza que muitas mulheres, apesar de entenderem isso, se farão de ingênuas e argumentarão a favor de macho no movimento. Porque não basta o macho opinar sobre a vida das mulheres historicamente, em sociedade, tem também que pautar o movimento feminista, o único espaço que devia ser liderado pelas mulheres. Essa necessidade de enfiar macho no movimento é um comportamento heteronormativo, é resultado da heterossexualidade compulsória que faz as mulheres héteros internalizarem que são apêndices de machos, a tal ponto que têm que viver ao redor do pinto de um. Parece duro né? Pois é, é isso que eu penso quando vejo mulher silenciando outra por causa de macho. Para legitimar que macho tenha voz EM UM ÚNICO espaço protagonizado pela figura feminina. Parem de esperar por príncipes de cu e bunda e protagonizem a história de suas próprias vidas, mulheres. Dá para gostar de macho, dá para ser hétero, sem precisar ser desesperada por homem. Para que isso de ter homem em tudo? Feminismo não é falocentrismo. E por que citei mulheres héteros? Porque não vejo mulheres lésbicas, bissexuais, pansexuais e assexuais, em massa, discutindo com outras mulheres para que homens tenham a passabilidade de uso do termo feminista.

Eu preciso do feminismo, por isso eu sou feminista. Mas eu não queria precisar do feminismo, pois eu queria não sofrer violência só por ser mulher. O feminismo só existe porque existe violência contra a mulher, porque mulheres insubmissas séculos atrás decidiram levantar suas vozes contra a dominação masculina. Eu sou feminista, mas eu queria não precisar ser. Ser feminista cansa. Ser feminista machuca. Ser feminista liberta, mas não é nada fácil. Feministas sofrem diversos tipos de violências, abusos, ataques e ameaças. Que mulher feminista militante nunca recebeu uma ameaça de estupro "corretivo"? Que mulher feminista militante nunca recebeu ameaça de assassinato? Que mulher feminista militante nunca foi ameaçada por expressar seus ideais? Que mulher feminista militante não é constantemente associada a figura da ''mulher-macho'', ''mulher mal amada'', ''mulher vadia''? Que mulher feminista militante não tem que lidar com a discriminação constante contra as feministas? Com todos os estigmas sociais que a palavra feminista carrega consigo? Mas vamos pensar nos homens feministas, nos revolucionários, sapientes, eloquentes homens salvadores das mulheres.

O homem pode ser o maior feministão que você respeita, mas na hora que o calo apertar, que os privilégios dele forem postos a prova, somos nós por nós... Na hora de apoiar as vítimas de estupro, somos nós por nós. Na hora de levantar a voz contra o feminicídio, somos nós por nós. Na hora de problematizar piadas misóginas, somos nós por nós. Na hora de apoiar umas as outras pela violência sentida na pele, somos nós por nós. Na hora de articular grupos de apoio para ajuda psicológica ou financeira para mulheres em situação de vulnerabilidade, somos nós por nós. Machos são criados para desprezarem os sentimentos das mulheres a medida que são ensinados a ignorarem a dor que eles causam a elas, a misoginia (violência física, verbal e sexual contra a mulher) é a prova disso. Eles nunca saberão de fato o que nós passamos. É nós por nós. A ajuda deles deve ser praticada de fora, isto é, como apoio, não como algo intrinsecamente ligado as pautas feministas, caso contrário, estamos fudidas. Todos os avanços femininos foram conquistados graças a luta feminina-feminista. Não apaguem nem deslegitimem a luta histórica das mulheres revolucionárias que não ficaram a espera de machos pela salvação do gênero feminino. 

Macho que quer apoiar o movimento não vai chorar na internet carteirinha de feminista. Macho que fica insistindo para ser chamado de feminista é macho escroto que só quer silenciar mulher, "pegar'' mulher ou ganhar ''biscoito'' de mulher, ao bancar o desconstruidão. O homem, de forma geral, está tão acomodado com seus privilégios de gênero que ele quer impor um lugar de fala/protagonismo até em um movimento - Feminismo - que luta contra um sistema opressor do qual ele é privilegiado e ocupa uma posição de poder. Homem que quer apoiar o movimento ignora o título de feminista, pró-feminista... e procura se desconstruir e desconstruir os amigos, sem esperar biscoito por isso. Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e no bar rir das piadas machistas dos bróders? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e em casa deixar todo serviço doméstico para a mãe, irmã, avó, esposa? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e no trabalho achar justo a mulher ganhar menos que seus colegas masculinos? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e passar a mão na cabeça do amigo estuprador, assediador? Do que adianta falar que é um homem feminista na internet e ser somente em seus discursos bonitinhos na internet?

Um macho, ou melhor, mais um, me chamou de feminazi, ou seja, me comparou aos nazistas, só porque eu defendo a ideia de que homem pode ser, no máximo, pró-feminista, jamais feminista. Para quem faltou as aulas de português: o PRÓ é um prefixo que, aliado a palavra feminista, indica APOIO. Vou repetir: a p o i o. Não é exclusão, segregação, negação de ajuda ou de apoio como muita gente pensa. É exatamente reiterar o papel do homem na causa: o de apoiador, aliado. Por que é importante deixar em evidência o papel do homem pró-feminista enquanto um homem que apoia a causa, não a lidera? Porque os homens, em geral, querem reclamar do protagonismo que eles não têm. Qual a necessidade de um homem dar uma palestra sobre empoderamento feminino sendo que existem inúmeras mulheres feministas que podem ocupar esse espaço com sua voz?  Qual a necessidade de ter homem em grupos feministas fechados para mulheres desabafarem a violência que sofrem somente por serem mulheres? Qual a necessidade de homens ficarem decidindo o que é ou não relevante para o movimento feminista? Que pautas nós, mulheres, devemos ou não levantar? Os homens desconstruídos adoram falar de feminismo, mas só na internet e nos espaços que deveriam ser ocupados pelas mulheres. Usar do espaço e voz que eles JÁ TÊM para tornar a sociedade mais receptiva ao feminismo é vandalismo. 

O pior, para mim, não são nem esses machos escrotos que ficam chamando de "feminazi" qualquer mulher feminista que os problematizem, mas as mulheres que insistem em enfiá-los no movimento. Eles não têm vez e nem voz para mim, logo pouco me importa a cagação de regra deles. O que fico enojada é com a quantidade de mulheres que fecham os olhos para o silenciamento das companheiras de luta para "defender" a carteirinha de feminista desses machos a todo custo. 

Querem machos no movimento para quê? Para que eles, em manifestações com CENTENAS de mulheres, ganhem mais visibilidade e virem assunto nacional? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles decidam quem é feminista de verdade, igual decidem quem é "mulher de verdade"? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles, quando contrariados, ao invés de nos chamarem de vadias, nos chamem de feminazis? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles sejam convidados, em eventos diversos, para falarem sobre empoderamento feminino? Sobre aborto? Sobre libertação da sexualidade feminina? Sobre cultura do estupro? Sobre como é sofrer diariamente com a misoginia? Como é ganhar menos só por ser mulher? Como é ser impulsionada a ser mãe pela maternidade compulsória? Como é ser silenciada numa sociedade que oprime mães? Como é ter o corpo vendido, usado como moeda de compra e venda? 
Querem machos no movimento para quê? Para que eles falem nos nossos espaços o mesmo que nós já falamos, porém ganhando a visibilidade que nós não temos? 

Entendam, negar protagonismo não é o mesmo que negar apoio. Apoio não vem de dentro, mas de fora do movimento. É quando o macho se dedica a falar de feminismo, de machismo, de patriarcado, de privilégios masculinos, entre outros, em casa, na rua, no trabalho, na escola, na universidade, com os amigos, NÃO para as feministas. O apoio masculino real é importante e deve ser valorizado, mas são superestimado. 

Homens que querem apoiar a luta feminista, ou vocês são machos pró-feministas que buscam falar de machismo, de feminismo, de privilégios masculinos para seus amigos misóginos (o que é muito importante) ou vocês são machos escrotos, misóginos e roludões do rolê que ficam na internet ofendendo mulheres feministas para serem chamados de feministas e se sentirem no direito de nos ensinarem o "verdadeiro movimento feminista'' pautado por vocês, os dois não dá.

3 comentários:

  1. Um conhecido meu compartilhou um post transfóbico dessa página sobre o dia das mulheres, e quando fui olhar percebi que não era único post que continha algum tipo de discriminação (transfobia, machismo, etc.). Gostaria de pedir a ajuda de vocês pra derrubar ela, os posts são extremamente revoltantes!
    https://www.facebook.com/ApenasHomens3.0Th/

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  2. Bom dia,Lizandra!Li atentamente teu texto, o qual me levou a fazer algumas reflexões acerca do movimento feminista. Por óbvio, muitas vezes ouvi o debate sobre o "lugar da voz", o que muito me perturbava (falo perturbação, no sentido de fazer um pensamento crítico a esse respeito), já que no meu discurso sempre levo uma mensagem pela igualdade de gênero, uma crítica ao heteropatriarcado,ao androcentrismo, a exclusão e opressão da mulher, etc., porém, nunca pretendi tirar o protagonismo da mulher no movimento feminista (até mesmo porque não participo de nenhum). Nesse sentido, me incomoda é o fato de que a sociedade machista (homens e mulheres), buscando tornar irrelevante a luta das mulheres e dar-lhes invisibilidade, ao ver um movimento formado apenas por mulheres, dão-lhe pouco importância dizendo que isso é "coisa de mulher". Mas, ao ler teu texto percebo, por outro prisma, vejo essa questão de outra forma agora. Efetivamente, os homens, ditos "feministas", devem se intitularem pró-feministas. Concordo, também, quando tu dissestes que "Apoio não vem de dentro, mas de fora do movimento". E no penúltimo parágrafo, sugeres como deve ser esse apoio. Mas, uma questão me intriga: no caso concreto, como tu sugeres que deve ser esse apoio dos pró-feministas? Os pró-feministas devem apenas ficar no discurso? O que deve ser feito, sem estar dentro do movimento e sem tirar o protagonismo da mulher? A sociedade machista é ardilosa e, como tu disseste, o apoio masculino é importante e deve ser valorizado. Grande abraço e boa luta ara vocês!

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    1. Boa tarde, Rogério! Não sou a autora do post, mas vim falar por mim. O que eu, mulher cis, 21 anos e feminista, espero de um homem pró-feminista.
      Em primeiro lugar, ele não deve compactuar com "piadas" machistas em roda de amigos. Viu algum amigo sendo misógino? Alerte-o, explique e, em último caso, afaste-se. Pessoas de bem andam com pessoas de bem.
      Homem pró-feminista nada mais é que um homem de caráter. Não mexa com mulheres na rua, não use termos machistas como "ajudar em casa" e não tente controlar uma mulher porque ela não é sua posse em hipótese alguma - seja esposa ou filha.
      Leia artigo, informe-se. Homem bem informado sobre o assunto pode nos ajudar e muito. Mas nos ajudar no lugar de fala deles, onde não temos acesso. Sempre que tiver uma mulher na mesa do bar e você for falar de feminismo, passe a palavra pra ela. Ela sabe o que falar melhor que ninguém. Ela tem a vivência.
      Esperamos também pelo boicote de marcas misóginas. Sabe aquela marca de cerveja que só objetifica o corpo da mulher? Por que não substituir, uma vez que eles não passam a imagem que você tem de mundo?
      Sabe aquela mulher que lhe deu um toco na balada? Por que não sorrir, agradecer e sair? Sabe aquele amigo folgado que deixa tudo pra mãe fazer? Por que não dar um toque?
      Sobre o que você diz de "ficar apenas no discurso", não. Absolutamente não. Sua preocupação pelo movimento pode ser posta na urna, por exemplo. Já pensou em votar em mulheres? Já pensou em dar visibilidade àquelas que estão na penumbra dos homens?
      Em algum conselho de classe, ou reunião empresarial, por exemplo, por que não esperar a mulher a falar tudo, sem interrompê-la?
      São pequenas ações assim que nós precisamos.
      E o mais importante de tudo: repasse seu pensamento adiante. Para seus filhos. Nunca deixe um garoto menosprezar uma garota por "ser coisa de criança".
      Um abraço e obrigada pelo interesse no movimento.

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Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente!