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LITERATURA FEMINISTA: CRÔNICAS, (MINI)CONTOS, POEMAS, RESENHAS E MAIS!

Cultura do estupro: o que é, como se faz?


Todos os dias, em qualquer lugar do mundo, mulheres são estupradas por homens. Por h o m e n s, mulheres são estupradas por homens, não por monstros, zumbis, ETs, demônios... mas por homens, homens que, em massa, não são "doentes''/"doentes mentais", mas filhos sadios do patriarcado. Eu repito: todos os dias acontecem estupros. Estupros. Estupros coletivos... Como se não bastasse isso, ainda vemos estupros sendo romantizados em novelas, séries, músicas, livros... Mulheres sendo culpabilizadas pela violência sexual sofrida sob a justificativa injustificável relacionada ao tamanho de suas roupas, ao horário em que estavam "fora de casa" (como se dentro de casa também não acontecessem estupros por parte de pais, irmãos, tios, amigos, vizinhos...) e, ainda, estupradores sendo absorvidos social e /ou judicialmente após terem violentado mulheres de diversas formas, da ejaculação no transporte coletivo ao abuso sexual numa festa universitária.
Todo esse quadro de violência contra a mulher que eu mencionei acima constitui a cultura do estupro, entendida aqui como um conjunto de ideologias e/ou atitudes misóginas e machistas veiculadas em discursos e/ou produções culturais que naturalizam, romantizam, legitimam e sustentam toda e qualquer forma de violência sexual contra as mulheres. 
Para entendermos a cultura do estupro, "como ela se faz", precisamos entender o que é o patriarcado: um sistema social, cultural, político e econômico de dominação-exploração-subordinação das mulheres pelos machos. Enquanto sistema, o patriarcado se sustenta através do pacto masculino pelo lugar de poder e privilégio dos machos em sociedade. Nessa esfera, se exerce o controle dos machos sobre a vida, o corpo, os desejos... das mulheres, tal controle se manifesta em várias atitudes masculinas abusivas/machistas/misóginas, como, por exemplo, nos atos de violência sexual. Estupro é, dessa forma, sobre relações de poder, não sobre desejo sexual ou doença mental, mas, sim, sobre o controle que os homens acham que podem, a todo custo, exercer sobre as mulheres, não se importando com seus nãos e violando seus corpos, indispostos a se entregarem para eles.  
O machismo e a misoginia, pilares do patriarcado, fornecem mecanismos ideológicos que, atuantes em discursos e outras práticas sociais, contribuem para a objetificação e hiperssexualização do corpo das mulheres de tal forma que homens abusivos usam como desculpa "roupa curta é convite" quando tentam se justificar do porquê de terem assediado ou abusado de alguma mulher, mesmo ela tendo deixado claro que não queria a investida sexual dele. É algo tão naturalizado culturalmente que muitas mulheres aceitam e reproduzem a ideologia por trás desse discurso machista e misógino.
Outro discurso machista muito naturalizado em sociedade e que corrobora com a cultura do estupro é o de que "a mulher deve transar com seu parceiro mesmo sem vontade", isto é, deve se submeter a estupros conjugais para agradar o macho, afinal "se você não faz sexo com seu homem, outra fará". Ideia essa problemática e falaciosa, pois se, por um lado, sexo disponível não é indicador de fidelidade, por outro, nenhuma mulher deve ser tratada como boneca inflável, um mero objeto sexual, sem vida, desejos e sentimentos próprios. Sexo é troca, é ato reciproco e deve sempre ser consentido, caso contrário o ato consistirá em abuso sexual. 
A indústria pornográfica, as "piadas" misóginas sobre estupro,  as músicas de massas que reproduzem ideias como "taca cachaça que ela libera", "vou abusar bem dessa mina toma/toma pica tranquilinha", as novelas, filmes, livros... que romantizam cenas de estupro, os comerciais que usam o corpo feminino como objeto associado a compra de um produto x ou y, os discursos machistas que questionam as vítimas de estupros (onde estavam? que roupa usavam? se beberam álcool? se conheciam o estuprador?...) e camuflam o ato dos agressores e a verdadeira causa do estupro: os estupradores, constituem outras práticas sociais de naturalização e perpetuação da cultura do estupro.
Sobre a culpabilização das vítimas de estupro, já perceberam como em notícias sobre casos de abuso sexual sempre aparecem pessoas dos quintos dos asfaltos dos infernos para tentar justificar os estupros e apontar meios-termos para tirar as atenções dos abusadores, abrindo espaço para questionamentos acerca da vida das vítimas?

  • Um homem estupra e mata um bebê de 2 anos: vamos esquecer esse estuprador e focar na mãe da criança, essa "vagabunda" que colocou um estuprador em casa, afinal estuprador vem com selo de violador na cara. 
  • Um homem estupra a própria filha, uma criança: vamos esquecer esse estuprador e focar na mãe da criança, essa "vagabunda" que casou com um estuprador e teve filha com ele só para ser abusada, afinal estuprador vem com selo de violador na cara. 
  • Um homem estupra a namorada: vamos esquecer esse estuprador e focar na moça que namora e deu confiança pra qualquer um, afinal estuprador vem com selo de violador na cara. 
  • Um homem estupra a esposa: vamos esquecer esse estuprador e focar nessa mulher que queria negar sexo ao marido conhecendo a personalidade dele, quem mandou casar com qualquer um, afinal estuprador vem com selo de violador na cara. 
  • Um homem estupra uma colega de universidade numa calourada: vamos esquecer esse estuprador e focar nessa estudante de roupa curta até altas horas em festinhas com homens, quem mandou dar confiança ao colega, afinal estuprador vem com selo de violador na cara. 
  • Um homem estupra uma mulher bêbada numa festa: vamos esquecer esse estuprador e focar nessa vagabunda bêbada, ela estava pedindo, afinal se bebeu com homem é porque quer dar, não liga para o que ele seja, afinal estuprador vem com selo de violador na cara. 
  • Um homem estupra uma funcionária sua: vamos esquecer esse estuprador e focar nessa mulher que escolheu trabalhar pra qualquer um, afinal estuprador vem com selo de violador na cara. Um homem estupra uma mulher na rua: vamos esquecer esse estuprador e focar nessa mulher, afinal como ela anda desacompanhada e passa perto de um homem sabendo que estuprador vem com selo de violador na cara. 

Somente no Brasil, pesquisas recentes apontam que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. A cada 11 minutos um caso de estupro é registrado no país. Olhe a hora em seu relógio nesse exato momento de leitura desse texto e imagine: daqui a 11 minutos pelo menos uma mulher será vitima de estupro no Brasil. Olhe quantos 11 minutos couberam no dia que já se passou, na semana, no mês... é alarmante o número de mulheres violadas, de mulheres que tiveram seus corpos objetificados e seus nãos desrespeitados. É tão alarmante que ainda terá quem dirá "doentes". Outro dado disponível em pesquisas e notícias na internet é que no Brasil no último ano foram registrados cerca de 10 estupros coletivos por dia. Essa é a prova de que estupradores não são doentes, afinal que doença é essa que atinge em massa homens que abusam de mulheres num mesmo lugar? Que doença é essa que praticamente só atinge grupos de homens em uma rua, bar, festa, casa... num lugar qualquer... e os condicionam a estuprar uma mulher? Não é doença. É misoginia. É machismo. É demonstração do poder do macho... do poder do mais forte (fisicamente) pelo mais fraco.

PS.: O foco analítico é nas mulheres enquanto vítimas por uma questão estrutural e de objetivo. Não por desconsiderar que existem outros perfis de vítimas dessa cultura abominável, tais como homens trans, homens cis, etc. 


Lizandra Souza.

Comentários

  1. Ei. Massa seu blog. Olha o meu também: http://compartilhandosobretudo.blogspot.com
    Tem ideias aleatórias e também sobre feminismo.

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