Pular para o conteúdo principal

LITERATURA FEMINISTA: CRÔNICAS, (MINI)CONTOS, POEMAS, RESENHAS E MAIS!

Falocentrismo, misoginia e a ditadura da beleza íntima: normatividades que fazem com que mulheres se odeiem cada vez mais

Beijinho só para quem não agride a ppk.

Já pararam para pensar sobre o porquê de tantas mulheres passarem por procedimentos desagradáveis, cruéis e até mesmo perigosos  para se enquadrarem em determinados padrões ou estereótipos de beleza que, em geral, acreditam ser para o próprio bem-estar ou "gosto pessoal" mas que, na verdade, mascaram um gosto assimilado por uma cultura misógina e falocêntrica? 
Falocentrismo é o culto ao falo, é a ideia machista de que o pênis é o centro do universo e tudo gira ao redor dele. Culturalmente, a figura masculina cisgênera representa o sujeito do falo, sujeito esse super-estimado socialmente. Aliado ao machismo, o falocentrismo é tão destrutivo que sustenta práticas culturais misóginas que fazem as mulheres odiarem o próprio corpo, até mesmo a própria genitália, pois há um padrão que essa deve seguir, padrão esse criado para o gosto masculino e reproduzido, sobretudo, pela indústria pornográfica: a ideia de uma vagina branca, clara, rosa, apertada, simétrica, lisa/depilada com cheiro de flores e sabor de frutas tropicais. 
Para entrar nesse padrão irreal as mulheres cada vez mais fazem práticas destrutivas que fazem mal a sua saúde íntima. Quando a gente pensa que está avançando o debate sobre padrões estéticos, sobre opressão estética, sobre a normatividade de um corpo feminino ideal: corpo cis, magro, branco, alto... A cultura misógina ratifica até mesmo um ideal de genitália para as mulheres seguirem. É absurdo! 
Sabonetes íntimos de frutas alteram o PH vaginal, não deixam sua buceta com sabor de manga, mas suscetível a infecções, bactérias, alergias e corrimentos anormais. Perfumes íntimos de flores alteram o PH vaginal, não deixam sua buceta com cheiro de cerejeira, mas suscetível a infecções, bactérias, alergias e corrimentos anormais. Maquiagem para a região íntima, com direito a iluminador e tudo, o que provavelmente altera seu PH vaginal... Cirurgias de simetrização da região íntima para meninas ainda virgens. Plásticas para a buceta. Depilação a laser, cera quente, fio... Depilação constante, o que deixa a pele da sua região íntima sensível, exposta e vulnerável a infecções, bactérias, alergias e corrimentos anormais... Todo dia um produto ou método diferente de transformar vaginas em buracos infláveis de bonecas sexuais.
Depois dos perfumes e sabonetes sabor frutas tropicais para as ppks, do ''iluminador para a vagina'', considerado o ''novo hit de beleza'' do momento, eu fiquei sabendo do incentivo de uso de pasta de dente, em grupos no facebook, na vagina, para a depilação, pois o creme dental supostamente deixa a vagina lisinha, refrescante e com sabor de menta, hortelã... muitas mulheres postaram sobre (supostamente) terem feito isso e, claro, mencionando a satisfação de seus parceiros ao se depararem com uma buceta ''lisinha e de menta''. Várias páginas de humor passaram a postar sobre, fazendo piadas e incentivos para o público feminino fazer a prática. Eu estou morta ao som de sweet dreams! 
Fui chamada de ditadora feminista, fiscal de ppk e o diabo a4 no FB porque fiz um alerta para as minas não machucarem a ppk nem passarem vergonha fazendo isso. Século XXI e a gente tem que explicar para as mulheres o porquê de fazer mal a saúde íntima usar pasta de dente na vagina. Até produtos voltados para a região íntima, muitas vezes, como foi dito antes, não fazem bem porque alteram o PH vaginal e deixam essa região mais vulnerável a bactérias, infecções, corrimentos anormais, alergias etc, imaginem um produto corrosivo voltado para a limpeza de bactérias bucais!!!??? Minas, colaborem pela deusa!!! Se disserem que veneno de rato deixa a buceta mais clara, apertada, lisa, com cheiro de flores e sabor de manga, vocês vão usar? Infelizmente a falta de dignidade e amor próprio em função de agradar macho é tanta que eu não duvido.
Se por um lado, amiga, pasta de dente na ppk faz mal a sua saúde íntima, é uma substância corrosiva, que pode lhe causar queimaduras íntimas ou deixar essa região mais vulnerável a bactérias, infecções, corrimentos anormais, futuros pelos encravados etc, por outro também, mas, se liga, eu não vou estar lá quando você for escovar sua buceta, para impedir que isso aconteça, então se você está seguindo uma ''ditadura'', sinto dizer que não foi implantada por mim, mas pelo patriarcado.
Desde que postei o alerta no meu perfil no FB, recebi fotos e relatos de meninas que fizeram depilação com pasta de dente e o resultado foi horrível. A pele queimada, cheia de bolhas e descascada... cheia de vermelhidão pela irritação e tudo de pior! Algumas precisaram procurar um(a) ginecologista porque a queimadura foi grave. Isso não é legal, não é bem-feito, não é risível. É triste. É absurdo. É misoginia. É um ódio tão internalizado pelo próprio corpo que faz com que as mulheres fiquem cegas diante de práticas literalmente corrosivas em nome de um padrão a ser seguido.
O Brasil é líder na procura por cirurgias íntimas de meninas ainda virgens que buscam estetizar a região íntima para enquadrá-la num padrão de beleza misógino, legitimado pela indústria pornográfica. Cada vez mais meninas e mulheres odeiam a região íntima e tudo por conta de um padrão misógino que as fazem ter vergonha do próprio corpo, da própria genitália. Incentivam-nas a não se aceitarem e a não reconhecerem as próprias peculiaridades como naturais. Inventam cor de buceta a ser exaltada, cheiro, gosto, tamanho, formato, o diabo a4, somente pelo fato de que odeiam mulheres, odeiam tanto que querem anulá-las em suas identidades, diversidades, peculiaridades... e reduzi-las a um mero objeto sexual, a um mero ''buraco'' de uso masculino. 


Imagem: Reprodução Instagram/The vulva Gallery

A sociedade não espera que sejamos mulheres, com características de mulheres adultas, mas bonecas infláveis ou ideais de consumos pornográficos. Se existem diferentes mulheres, com tamanhos, cores, características variadas, existem também diferentes tipos de vaginas, com diversos tamanhos, cores, formas, texturas... É algo natural, normal. Não aceitem que suas peculiaridades sejam vistas como imperfeições. 
Já pararam para pensar como pelos e características naturais no corpo das mulheres são vistas como coisas ofensivas? Mulheres adultas têm pelos. Suam. Têm odores. Uma vagina não é uma manga (e quem gosta de manga não liga para fiapo), logo ela não precisa ter o sabor de uma. Higiene é lavagem diária, um sabonete neutro na parte externa, não depilação. Depilação é estética e você tem todo o direito de fazer, mas é sempre bom estar consciente de que dependendo da forma que você faz, ela pode lhe machucar. Creme dental na depilação? Jamais, okay? Depilação total e/ou constante também não fazem bem a saúde íntima. Esses sabonetes e produtos íntimos que supostamente dão um cheiro, sabor ou ''formato'' na sua vagina também não prestam, eles alteram seu PH e vulnerabilizam sua genitália, a deixando mais suscetível a doenças infecciosas. A vagina possui auto-lubrificante, ela faz com que o canal vaginal se auto-limpe sozinho, em geral, não precisa que você insira produtos químicos lá. Água na parte interna, água e sabonete neutro na parte externa. Se cuide sem exageros que possam lhe fazer mal!!! Se ame.

Lizandra Souza.

Comentários

  1. Bom dia . Falou tudo! Imagina fazer tudo isso? Verá quente na ppk e no cú , o método mais usado pelas brasileiras e que já ganhou mundo afora por conta do apoio da indústria pornográfica. Na Europa é fato! De Nova Iorque à Berlin essa ditadura da beleza se impõe. Obrigada pelo texto e que fique sempre esse alerta àtodas as mulheres e jovens mulheres.
    Sororhugs,
    Al

    ResponderExcluir
  2. Mando logo a real pro macho, so raspo a ppk se ele raspa os bago e o ravioli ta oquei!? Haushaush

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente!

Postagens mais visitadas deste blog

O (não) uso do sutiã e a problematização feminista

A nova onda virtual feminista da vez é problematizar o uso do sutiã sem recorte histórico, social e individual. Por um lado, algumas militantes dizem que ''não usar sutiã é revolucionário'' e que ''a mulher que usa está se prendendo a moldes patriarcais de censura do corpo feminino'', do outro, outras alegam que ''não usar sutiã não é revolucionário ou empoderador'' e que ''só não usa quem tem "peito padrão", quem tem peito pequeno, quem está mais próxima do padrão estético de beleza''. A era do 8 ou 80... Muito pensamento autoritário e extremo/fechado de ambos os lados. Eu vou problematizar o uso do sutiã enquanto objeto criado pra, por exemplo, ''camuflar mamilos femininos'', "dar outra aparência aos seios da mulher", "evitar [algo natural do corpo humano] que os seios caiam".  Mesmo depois de mais de um século de sua existência, ainda há hoje todo um tabu sobre o...

#ÉMachismo: atitudes machistas naturalizadas no nosso dia-a-dia

  O machismo é o pilar do patriarcado: sistema de dominação-exploração-subordinação da mulher pelo homem. Quando se fala em machismo, muitas vezes, nos vêm a mente mulheres estupradas, assassinadas e espancadas, ou, ainda, frases como "mulher é o sexo frágil", "é natural a mulher ser emocional enquanto o homem é racional", "foi estuprada porque usava roupa vulgar", "ela gosta de apanhar", "o homem é superior a mulher", entre outros discursos e atitudes explicitamente machistas. Contudo, isso não significa que somente esses comportamentos extremos consistam em machismo. Em nossa vida cotidiana, reproduzimos ou consumimos, de forma naturalizada e/ou inconsciente, atitudes machistas veladas de simples opinião, o que legitima a manutenção do patriarcado e, consequentemente, dificulta sua superação.   Abaixo, reproduzo alguns discursos e atitudes machistas que são naturalizadas no nosso dia-a-dia. O machismo também mora nos detalhes, ...

Feminismo, uma questão de igualdade ou de equidade?

Para mim, feminismo não é sobre ''igualdade de sexo'', ''igualdade entre os gêneros'', ''igualdade entre homens e mulheres''. Isso nunca vai existir. Mulheres e mulheres não são iguais, muito menos mulheres e homens. Feminismo não existe para pregar que mulheres sejam iguais aos homens. Eu não quero me igualar a um gênero opressor. Eu não quero que ocorram 5 espancamentos de homens, por mulheres, no Brasil, a cada 2 minutos. Eu não quero que 1 homem seja estuprado a cada 12 minutos no Brasil. Eu não quero que a cada 90 minutos 1 homem morra por questão de gênero. Eu não quero que cerca de 180 homens, por dia, relatem agressões sofridas em um sistema de atendimento de denúncia só para homens. Eu não quero que 43 mil homens sejam assassinados, 43% em casa, em 10 anos, por mulheres só por serem homens. Eu não quero que homens ganhem menos que mulheres só por serem homens, mesmo havendo na lei que não é permitida discriminação por gênero...

O super-piroca

Era uma vez um homem que se gabava muito de sua piroca. Era a piroca isso, a piroca aquilo. Se não chovia no Nordeste, era falta de piroca no clima. Se o pão queimava, era falta de piroca no padeiro. Se as enchentes invadiam alguma cidade, era falta de piroca no saneamento... Se as as mulheres iam às ruas lutar por direitos... aí sim que era falta de piroca mesmo. Para Piroconildo somente uma coisa poderia resolver as dificuldades das pessoas: uma piroca. Ou várias. Mas não para por aí. As coisas que ele achava como sendo boas também estavam relacionadas à piroca, à presença dela... Seu primeiro emprego, resultado de sua piroca. Sua cura de uma doença rara, sua piroca e a piroca do médico... Se seu time de futebol ganhasse um jogo, fora por causa da piroca. Seu sobrinho passou no vestibular por causa da piroca. Sua tia ganhou na loteria, por causa da intuição da piroca do marido. Certo dia, numa rua qualquer, Pirocon...

Vamos falar de misandria?

 O que é misandria no feminismo?   É o ódio generalizado aos homens?   N Ã O.  A misandria geralmente é dicionarizada como sendo o ódio aos homens, sendo análoga a misoginia: ódio às mulheres. Esse registro é equivocado e legitima uma falsa simetria, pois não condiz com a realidade social sexista vivida por homens e mulheres. Não  existe uma opressão sociocultural e histórica institucionalizada que legitima a subordinação do sexo masculino, não existe a dominação-exploração estrutural dos homens pelas mulheres pelo simples fato de eles serem homens, todavia existe o patriarcado: sistema de dominação-exploração das mulheres pelos homens, que subordina o gênero feminino e legitima o ódio institucional contra o sexo feminino e tudo o que a ele é associado, como, por exemplo, a feminilidade. Um exemplo: no Nordeste é um elogio dizer para uma mulher que "ela é mais macho que muito homem", tem até letra de música famosa com essa expressão, contudo...