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LITERATURA FEMINISTA: CRÔNICAS, (MINI)CONTOS, POEMAS, RESENHAS E MAIS!

"É de menino! É de menina!": você contribui para a desigualdade de gênero?

O machismo é um dos pilares do Patriarcado - sistema de dominação-exploração da mulher pelo homem/cis. Tal dominação-exploração é naturalizada socialmente para que, assim, esse sistema de opressão seja sustentado. A educação familiar sexista machista é um dos mecanismos de sustentação da opressão de gênero, pois ela consiste em, desde cedo, ensinar as crianças determinados estereótipos de gênero para fazer com que elas internalizem e aceitem padrões restritivos e opressores que determinam seus comportamentos.
Muitas pessoas adultas devem se lembrar de já terem ouvido pelo menos uma vez na vida frases do tipo "boneca não é coisa de menino", "é feio ver menina jogando bola", "menino não brinca de casinha", "menina não senta assim", "menino não chora", "é feio ver menina correndo", entre outros discursos que estimulam comportamentos diferenciados construídos (e não inerentes) para meninas e meninos, os quais contribuem, efetivamente, para a sustentação das relações sociais assimétricas entre os gêneros.
Tais comportamentos também são legitimados pela heterossexualidade compulsória, através da qual as crianças são condicionadas, mesmo que indiretamente, a desenvolverem sua sexualidade e, em específico, sua orientação sexual, de modo que esta deve estar voltada necessariamente a gostar do gênero oposto.
É assim que os pais, por exemplo, erroneamente, proíbem seus filhos, meninos, de brincarem de boneca, pois como isso foi convencionado para meninas, os meninos, na mentalidade sexista e homofóbica deles, irão, futuramente, se descobrirem homossexuais (os quais, de forma preconceituosa, são vistos, muitas vezes, como homens que querem ser mulheres). No caso das meninas, se gostarem muito de coisas convencionadas aos meninos, como jogar bola, preferir brincadeiras que exercitem o corpo, que requeiram força... o medo dos pais (lesbofobia internalizada) é que elas, mais tarde, venham a se assumirem lésbicas.
O que falta são essas pessoas entenderem que brinquedos, brincadeiras, cor de roupa... não determinam a orientação sexual. E que, ainda, existem diferentes orientações sexuais além da hétero, as quais devem ser respeitadas.
Outro comportamento social normativo que vem sendo discutido, principalmente em meios feministas interseccionais, queers e/ou trans aliados, atualmente, é o binarismo de gênero, o qual, além do machismo e da heterossexualidade compulsória, tem contribuído para manter tal divisão entre o comportamento das crianças. O binarismo, nesse contexto, funciona como um divisor de identidades de gênero absolutas, nas quais uma criança só pode se identificar com o espectro masculino ou feminino (o qual lhe foi atribuído ao nascer de acordo com sua genitália, logo uma atitude cis-normativa), em outras palavras, numa sociedade binarista, só existem duas possibilidades de gênero, divididas entre o ser-homem x ser-mulher ou, ainda, ser somente homem ou ser somente mulher.
A partir disso, são convencionados papéis de gênero restritivos e opressores, os quais, em geral, contribuem não só para a manutenção do machismo, mas também da transfobia (opressão, preconceito, violência e discriminação contra pessoas transgêneros/transexuais). 
Por conseguinte, precisamos estar atentas/es*/os diante da educação que nossas crianças (filhas/es/os, sobrinhas/es/os, primas/es/os, amigas/es/os...) estão expostas, pois esta educação será uma das bases para a formação da personalidade e caráter dessas pessoas. 

Confira, a seguir, 10 comportamentos que devemos evitar ensinar as crianças**. 

1. "Os meninos usam azul, as meninas usam rosa"


2. "Os meninos gostam de super-heróis e as meninas gostam de princesas"

E você, gosta de fazer papel de trouxa?

3. "Os meninos gostam de brincar na sujeira, de correr, pular... já as meninas preferem brincar de casinha"
Bem menas.


4. "Meninos devem se preocupar mais em serem inteligentes e as meninas em serem bonitas e agradáveis"
E assim mantemos aquele status quo da mulher-objeto, né?

5. "Os meninos crescem para serem chefes, as meninas crescem para serem mamães/donas de casa"

Até porque esse é nosso único objetivo de vida. Só que não.

6. "Meninos são mais fortes e corajosos, já as meninas são mais calmas e delicadas"

Não sou forte, muito menos corajoso... sou menos menino?...

7. ''Os garotos não são os culpados por suas más ações para com as garotas, mas elas precisam ter cuidado de como suas ações afetam os meninos''

Seje menas. 

8. "Se um menino maltrata uma menina é porque ele gosta dela"

E assim a menina aprende a naturalizar o abuso e a acreditar que ele é uma forma de amor.

9. "É feio menino brincando de boneca... o que ele vai ser quando crescer?"
Um bom pai?

10. "Serviço doméstico é coisa de mulher, os meninos podem ir brincar ou assistir TV com o paizão enquanto as meninas ajudam a mãe a fazer a comida/lavar a louça..."

E assim os meninos morrerão de fome no futuro ou passarão a temer fazer a própria comida ou a lavar uma louça para preservar a própria masculinidade. Enquanto isso, o trabalho doméstico inteiro fica por conta da mulher.

*Já que falei em binarismo, não podia ser binarista e esquecer que hoje em dia muitas pessoas se sentem representadas com o "e", o que torna a palavra neutra (não feminina, não masculina).
**Apesar de o texto em geral ser construído a partir de uma perspectiva cisgênera de divisões de comportamentos, isso pode nos levar a refletir em como a socialização das crianças trans é também opressora, pois socializar uma criança com o gênero o qual ela não se identifica é uma atitude cisnormativa que contribui para o apagamento de sua identidade. Não entrarei em detalhes sobre a socialização cisnormativa que as crianças, em especial as trans, sofrem por questões de propriedade de fala, porém farei depois um post com indicações de leituras sobre isso. Sobre a divisão que fiz entre "meninos e meninas" nos memes do post, usei dessa divisão pelo fato de a nossa sociedade binarista fazer isso, assim sendo, fiz por questões didáticas para retomar os discursos em circulação social e criticá-los.

Lizandra Souza.

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